Um blog para todos e ninguém, muito além do bem e do mal. Pode conter falhas, mas isso é tão humano. Demasiado humano. Caso eu digite errado, ofenda alguém ou mude de idéia posteriormente sobre algum assunto, já tenho minha desculpa:
Assim falhou Zaratustra
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Domingo, Outubro 31, 2004
"Los espejos y la cópula son abominables, porque multiplican el número de los hombres" - J. L. Borges in Ficciones
~n~
Borges é um adorador de espelhos e labirintos. Foi um adorador. Os espelhos são, se pensarmos bem, uma incógnita. Parece haver do outro lado um outro mundo. Outros mundos, se colocados dois espelhos em angulações diferentes, um em frente ao outro. É um tipo de labirinto que se apresenta em nossa frente e nos interroga o porquê de estarmos ali. Não sabendo a resposta, uma hora acabamos por sair da frente do espelho.
~n~
A noite abarcou minha canseira. Com suas mãos em concha, embalou-me o sono pela madrugada fugidia. Alguém de uma maneira reticente me adorava. Alguém. Talvez reticente não seja a palavra que possa descrever exatamente a forma de adorar. Uma maneira, digamos... receosa, duvidosa...não. Hesitante. Alguém de uma maneira hesitante me adorava. Não largava-se loucamente a apaixonar-se por mim. Tinha algo que a prendia e evitava a completude* de seu sentimento.
Mas me amava, como eu a amo: hesitante.
Talvez se jogássemos tudo ao abismo** a volúpia em nós tornaria nossa hesitação em furacão ou tormenta. Talvez.
O espaço onde tudo aconteceu não houve hesitação. Ela beijou-me e senti aqueles lábios e sua pele em minha. Era como realidade, apesar de não sê-la. Somente um espelho duvidoso nos mantinha vivos.
E hesitantes.
________________
*existe "completude"?
**normalmente jogamos tudo pra cima. O autor, nesse caso, sentiu que se jogar pra cima, tudo pode cair de volta no mesmo lugar. O melhor é jogar para o abismo, donde não há retorno.
23:48
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Domingo, Outubro 17, 2004
PÔ, ÉTICA?
Tudo como um nó a vir a mim
em síncope furiosa
Enfio a faca em teu peito
por amor a ti
O furor do vento escreve meus dedos
o torno revive o mundo em dois ventos
Para ver-te, afogo-me em oceanos mortos
para ver-te,
explodo teus enganos
destruo o suave sereno que te enleia,
durmo abraçado com espectros
acariciando teus pesadelos
Por necessidade de odiar-me,
te amo
Por necessidade
de ver-me no espelho,
síntese de ilusões,
te amo
Como um corpo esvaindo em sangue,
como a ferida que derrama sangue,
como um vampiro desejando,
sedento de teu sangue
te amo.
***
O SOL
Brilha na eterna manhã
do dia que se pôs
chuva,
na morte dos ventos etéreos
que sobrevivem
sobre a serra.
Sobressalta
obstáculos
sobre a vida
do infinito
***
INFINITO
Como tudo, um quase.
Um quase feito
quase dito
quase aos poucos.
Perfeito,
inter-dito.
Um quase-lá,
mas quase não
por certezas
ou dúvidas
Um quase sem
lembranças
Um quase-fim
***
QUASES
Sois vós a repartição de meu medo
em partes intangíveis
como seres distantes do fundo
ou mundos inatingíveis
Sois vós
aqueles cujas vozes mordazes
em seus discursos incertos
enchem o peito,
loquazes
Sois vós
a desesperança bruta
e corajosa
como um nó na vida
errada
Sois vós
quase como nós
impuros, incompletos
inadmissíveis
Sois um quase
que morreu
desperto
***
DESPERTAR DA MORTE
Despertar a morte
fugindo com teus dias
Amo teu amor revoltado
amo teus invernos
como unha em tua carne
quente como o deserto
como um ar fútil
em teus seios
Minhas mãos percorrem
teu corpo
desejoso, lascivo
a volúpia que de tua pele emana
e eu como algoz de teu desejo
juntos somos quase uma ameaça
à sanidade humana
Gozo em tuas vidas
dentro de ti
gritos
despertos
silêncio
suspiro
Silêncio.
15:22
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Domingo, Outubro 10, 2004
Pequena elegia à hora do almoço
Meio-dia de um dia abafado. Estamos em plena segunda-feira de um outubro incerto em um ano qualquer. Local: um supermercado. Em minha frente, carrinhos perdidos perambulam para todos os lados. A ressaca é grande, o mar bravo. Eu, tonto. Fome. Há algo diferente no ar...
É o cheiro do almoço. A fila, um pouco grande, um tanto mais atrapalhada, demora. A fome aperta. Penso no dia maçante que virá dali em diante. Como todos os últimos dias: monótono, desgastante.
Salada: beterraba e um pouco de alface e cenoura. Não sou um vegetariano inveterado. Na verdade, quanto menos salada, melhor. Pudesse eu viver de carnes e alimentos ditos "maus", a vida estaria boa. Carne, arroz e feijão, eis o básico da vida. Como aos poucos. A TV ao lado mostra imagens de um show sertanejo qualquer que não me interessa e também não é relevante para o relato. O ar pesa ao redor. Há como uma bigorna etérea, difusa que pressiona todos ali para o chão.
Comer é um exercício de paciência, pois se encontra dentro de outro exercício maior: viver. Sabendo que a vida acaba e é curta, temos pressa. Mas nossa pressa é inócua, justificamo-la, ou pelo menos tentamos justificá-la, com nossas tarefas inúteis, nosso dia-a-dia tosco. O desejo sobre-humano de fazer tudo rápido para, após, saborearmos a vida, é prova irrefutável de nossa presunção perante o tempo que nos controla. Ou nos abarca. A nossa pressa é inútil; como é inútil conjecturar sobre o tempo.
A prolixidade não é comumente uma de minhas melhores características. Essa digressão acima sobre a pressa e o tempo não tem a menor ligação com o tema do texto. É, como dizem os expertos, a famosa licença poética, que autores do mundo todo usam e abusam para inserir em suas obras suas opiniões sobre a vida, sobre os absurdos e outros temas eternos, como o tempo. Se pararmos para analisar, não interfere na trama do texto. Não digo que não sejam interessantes, algumas com certeza o são. Mas não fariam falta ao texto. É o que o povo da Inglaterra chama de sausage fulfilling e nós, de língua portuguesa, de "abarrotamento de carne de porco em tripa delgada". Ou, simplesmente, encher lingüiça. Faz-se necessária, doravante, a redução de tais artimanhas literárias questionáveis. Voltemos ao relato.
Mais ou menos umas duas mesas em diagonal, à minha frente, estava sentada uma moça. Calculo que entre 23 e 27 anos. Cabelos um pouco acima dos ombros, castanhos claros. Rosto singelo, de feições finas. Olhar compenetrado. Pele alva, porém bronzeada. Bem vestida. Calmamente comia, sem a pressa dos tolos e néscios.
Não a havia percebido ainda. Sentei à mesa, abri o refrigerante que ignoro o sabor (é mais poético falar "ignoro" que "não lembro") e comecei a devorar meu desjejum do meio-dia. Quando estava entretido com o bife e sua feroz luta com meus talheres, olho ao lado, como todas as pessoas que olham aos lados sem nenhuma pretensão de nada, apenas pelo puro e simples fato de olhar e exercitar nosso inerente desejo de voyeurismo. Eis que me deparo com essa garota. Desvio o olhar, por instinto ou por alguma outra explicação que ignoro (tá bem, eu não sei, não sei!). Nossos olhos haviam se encontrado.
Volto à comida. É comum em nossa rotina esbarrarmos com olhares alheios. E nada melhor que a expressão esbarrar, porque há mesmo um contato físico que resulta, depois da esbarrada, num distanciamento do olhar. Como se uma bola fosse um olhar e quando o pé (o outro olhar) esbarra, a bola vai em outra direção. Dessa forma meu olhar foi empurrado para o lado. E voltei a comer.
Depois de um tempo, já devidamente esquecido o fato, distraidamente acabo por olhar novamente para a moça. E ela me fitava novamente. Contudo, dessa vez, como quem segura uma porta empurrada por uma multidão, meu olhar esbarrou e se deteve. Infindáveis dois segundos deve ter sido o tempo de contato. Dessa vez é ela quem cede, e volta a comer em sua mansidão de mar em recifes, olhando aleatoriamente para os lados.
Enquanto termino o almoço, olho rapidamente para ela, evitando outra esbarrada, que poderia ser fatal para um de nós. Ela começa a sobremesa. Eu não tenho tempo para sobremesas, tenho pressa. Quando me levanto, noto que ela me olha mais uma vez. Poderia ser a mulher perfeita, quem eu estou procurando há tempos. Poderia ser um engano. Ela poderia estar olhando para alguém sentado atrás de mim. Poderia casar-me com ela.
Vagarosamente saio de minha mesa em direção ao caixa, prestando atenção meio de soslaio para ela.
Nenhum olhar.
Pago a conta. Lentamente me dirijo à saída, pensando em todo o acontecido dos últimos minutos. O tempo de um almoço apressado foi o suficiente para me fazer sonhar com ela dias seguidos, seus olhares, sua face, suas inescrutáveis intenções. Antes de sair, viro o rosto uma última vez torcendo, pedindo a algum deus que a fizesse retornar, pela última vez, seu olhar, que consagraria nossa cumplicidade e eternizaria o momento como uma lenda, um possível conto de fadas para gerações futuras ou, ao menos, uma boa lembrança para nossas velhices.
Ela comia, imperturbável, sua sobremesa.
18:06
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Sexta-feira, Outubro 01, 2004
Ver com outros olhos é:
ver com olhos dos outros a mesma coisa
e interpretá-la de maneira diversa
ou
ver com meus próprios olhos
sob um outro prisma ou ângulo
ou
não ver - fechar os olhos
para não perceber a mesma coisa
nem de uma forma nem de outra
ou
ver-se no espelho
e perceber as coisas e a vida
ao contrário
ou
cegar como Borges
e viver em labirintos de Buenos Aires imaginárias
ou
como Glauco Mattoso
que vive em labirintos depravados
de seu próprio glaucoma
ou
como John Fante
que recitava Bandinis para a esposa
enquanto com outros olhos via a escuridão
ou
como a cegueira de Saramago,
a cegueira vista com outros olhos
- pois é branca -
e por outros olhos
- de mulher
ou
ver as coisas de cima, voando
como um passarinho...
ou um passarão!
18:50
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